Digitalização, produção sob demanda e novos modelos de negócio

Por Sarah Caldas, artigo publicado na Revista Textil #797

Felipe Sanchez, CEO do Grupo Bloom

Em entrevista à Revista Têxtil, Felipe Sanchez, CEO do Grupo Bloom, apresenta uma análise abrangente sobre o momento vivido pela indústria da estamparia têxtil e os principais desafios e oportunidades que moldam o futuro do setor. Para ele, o mercado atravessa uma transformação estrutural que vai muito além da substituição de tecnologias analógicas por equipamentos digitais.

Trata-se de uma mudança na forma de produzir, vender e responder ao comportamento de um consumidor cada vez mais exigente, conectado e imprevisível.

Segundo o executivo, a estamparia mundial enfrentou nos últimos anos uma das maiores retrações de sua história, com redução significativa dos volumes produzidos. Entretanto, os sinais atuais indicam uma retomada consistente, impulsionada por novos modelos de produção e pelo crescimento da digitalização. No Brasil, essa recuperação acontece em paralelo a uma revisão profunda dos processos industriais, marcada pela necessidade de reduzir desperdícios, aumentar a velocidade de resposta ao mercado e tornar as empresas mais competitivas.

Felipe destaca que o consumidor deixou de aceitar longos ciclos de desenvolvimento e coleções rígidas. Hoje, a demanda está cada vez mais pulverizada, personalizada e dinâmica. Nesse contexto, manter grandes estoques representa um risco crescente. A competitividade deixa de depender exclusivamente do menor custo de produção e passa a estar diretamente relacionada à capacidade de entregar rapidamente aquilo que o mercado deseja consumir.

Para o CEO do Grupo Bloom, a digitalização não pode ser confundida apenas com a aquisição de novos equipamentos de impressão. Ela envolve uma transformação completa do modelo operacional, baseada na integração entre criação, vendas, produção e logística. O uso de dados, sistemas conectados e processos automatizados passa a orientar a tomada de decisões, reduzindo retrabalhos, aumentando a produtividade e permitindo respostas muito mais rápidas às mudanças do mercado.

Embora reconheça que o Brasil tenha avançado significativamente na adoção da impressão digital têxtil, Felipe considera que o país ainda está distante do nível de maturidade observado em mercados mais desenvolvidos. Muitas empresas já compreenderam o potencial das novas tecnologias, mas ainda mantêm estruturas organizacionais e modelos de gestão voltados para grandes volumes e baixa flexibilidade. A mudança cultural, segundo ele, continua sendo um dos maiores desafios para acelerar a transformação digital.

Além da resistência natural à mudança, o executivo aponta outros fatores que dificultam esse avanço. Entre eles estão a escassez de profissionais qualificados, capazes de operar tecnologias cada vez mais sofisticadas, e principalmente o elevado custo do capital no Brasil. Enquanto empresas europeias conseguem acessar linhas de financiamento com juros reduzidos, a indústria brasileira frequentemente enfrenta taxas elevadas e condições pouco favoráveis para investimentos em inovação, limitando a velocidade de modernização do parque industrial.

Um dos temas centrais da entrevista é a produção sob demanda, apresentada como uma das principais estratégias para reduzir desperdícios e aumentar a eficiência econômica da cadeia têxtil. Felipe explica que comparar apenas o custo unitário de uma peça produzida sob demanda com o da produção convencional é uma análise incompleta. Mesmo que a fabricação individual apresente um custo ligeiramente superior, a redução de estoques, remarcações, perdas comerciais, capital imobilizado e descarte de produtos faz com que o resultado financeiro global seja mais favorável.

Na sua avaliação, o futuro da indústria será híbrido. A produção em larga escala continuará existindo para determinados segmentos, especialmente produtos básicos e commodities têxteis. Entretanto, coleções de moda, produtos personalizados, lançamentos frequentes e reposições rápidas tendem a migrar cada vez mais para modelos flexíveis, capazes de produzir exatamente aquilo que será vendido, reduzindo significativamente o risco de excedentes.

Essa mudança exige uma nova mentalidade empresarial. As organizações deixam de produzir para formar estoques e passam a produzir em resposta à demanda real do mercado. 

Para isso, torna-se fundamental integrar departamentos tradicionalmente isolados, acelerar processos de aprovação e incorporar tecnologias como inteligência artificial, automação e análise de dados como ferramentas permanentes de gestão.

Outro ponto amplamente discutido é o modelo de impressão como serviço. Em vez de adquirir equipamentos de alto valor, as empresas passam a utilizar a tecnologia mediante pagamento proporcional ao uso, transformando investimentos de capital em despesas operacionais. Segundo Felipe, esse formato reduz barreiras de entrada, amplia o acesso à inovação e cria uma relação mais próxima entre fornecedor e cliente, já que ambos passam a compartilhar a responsabilidade pela eficiência operacional e pelos resultados da produção.

O executivo destaca ainda que esse modelo garante atualização tecnológica constante. Em um mercado onde novos equipamentos são lançados em intervalos cada vez menores, pagar pelo uso da tecnologia pode representar uma alternativa financeiramente mais eficiente do que investir continuamente em máquinas sujeitas à rápida obsolescência.

Ao abordar a sustentabilidade, Felipe propõe uma reflexão importante. Para ele, o principal problema ambiental da indústria da moda não está apenas no consumo de água, energia ou insumos químicos, mas principalmente na produção de itens que nunca serão efetivamente vendidos. A verdadeira sustentabilidade, afirma, está na capacidade de produzir apenas aquilo que será consumido, eliminando desperdícios ao longo de toda a cadeia produtiva. Nesse sentido, a impressão digital e a produção sob demanda tornam-se ferramentas fundamentais para reduzir impactos ambientais e melhorar simultaneamente os resultados econômicos das empresas. Segundo o executivo, sustentabilidade e rentabilidade precisam caminhar juntas para que a transformação aconteça em larga escala.

Felipe também analisa o papel do Grupo Bloom como integrador de tecnologias internacionais no mercado brasileiro. Após duas décadas de atuação, a empresa busca adaptar soluções globais às condições específicas da indústria nacional, oferecendo suporte técnico, modelos financeiros, treinamento e desenvolvimento de novos formatos de negócio capazes de acelerar a adoção das tecnologias digitais.

Apesar do avanço tecnológico, ele reconhece que ainda existe um descompasso entre a oferta das soluções mais avançadas e a realidade produtiva brasileira. Tecnologias de altíssima produtividade, como sistemas Single Pass, exigem volumes de produção que muitas empresas nacionais ainda não conseguem atingir. Para superar essa limitação, será necessário reduzir o chamado “Custo Brasil”, ampliar o acesso ao crédito e criar condições para que a indústria nacional ganhe escala e competitividade frente aos concorrentes internacionais.

Questionado sobre o futuro da estamparia digital, Felipe acredita que o crescimento ocorrerá tanto pela evolução das empresas já consolidadas quanto pela entrada de novos players, normalmente mais leves, digitais e inovadores. A convivência entre grandes grupos e novos empreendedores deverá acelerar o ritmo das transformações nos próximos anos.

Ele também prevê uma integração cada vez maior entre design, plataformas de e-commerce, inteligência artificial e produção industrial. Essa conexão permitirá reduzir drasticamente o tempo entre criação, fabricação e entrega dos produtos, transformando a estamparia em um centro estratégico de informação, produtividade e tomada de decisão dentro da cadeia têxtil.

Encerrando a entrevista, Felipe apresenta algumas das novidades que o Grupo Bloom pretende lançar nos próximos meses. Entre elas estão soluções de impressão digital com pigmento para tecidos em rolo com câmeras que controlam a área do tecido onde se quer imprimir, impressão de áreas inteirara de uma cor psra subistituir a tinturaria para metragens menores, novos modelos comerciais baseados em pagamento por uso, maior integração entre inteligência artificial, automação de fluxo e digitalização completa dos processos produtivos. O objetivo, segundo ele, é democratizar o acesso às tecnologias mais modernas, permitindo que empresas de diferentes portes aumentem sua produtividade, reduzam custos e fortaleçam sua competitividade em um mercado cada vez mais orientado por velocidade, inteligência e eficiência.

Perfil do Autor
Sarah Caldas

Agente AVA e Coordenadora do Núcleo.

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