A ressignificação das artesanias e seu papel na construção de um futuro regenerativo.

Autora: Clarissa Magalhães

Imagine um tecido tão fino e delicado que, ao ser apresentado nas cortes da Ásia e Europa, muitos acreditavam que não poderia ter sido criado por mãos humanas. A Musselina de Dhaka, uma verdadeira joia da era do Império Mughal entre os séculos XVI e XVIII, era tão rara e preciosa que um único metro1 custava entre R$3562 e R$2.844. Esses valores, atualizados para os dias de hoje, equivaleriam a impressionantes R$49.760 a R$398.633. Mesmo a melhor seda da época custava até 26 vezes menos na Inglaterra. A Musselina de Dhaka era feita de algodão Phuti karpas, cultivado nas margens do rio Meghna, em Bangladesh, e seu processo de produção meticuloso envolvia toda a comunidade. Entretanto, essa história de luxo e requinte começou a desmoronar com a chegada da Revolução Industrial e a colonização britânica. A pressão por produção em massa, a redução de custos e o monopólio comercial da Inglaterra destruíram essa cadeia produtiva artesanal. Os artesãos, mestres desse conhecimento ancestral, foram forçados a abandonar suas práticas, e o raro algodão Phuti karpas desapareceu, encerrando a era do lendário tecido.

Assim como a Musselina de Dhaka, o Brasil enfrenta desafios na preservação de suas tradições artesanais, que foram influenciadas pelo período colonial e agora lutam para se reinventar em um mundo globalizado. Segundo Eduarda Bastian, da Fibershed Brasil, a valorização do artesanato está diretamente ligada à preservação de certas fibras através do manejo tradicional. Ela enfatiza que, quando essa prática cai em desuso, a perda da biodiversidade local também pode se tornar um risco iminente.

Apesar da valorização ser necessária, a proposta para o artesanato brasileiro hoje não é torná-lo um produto totalmente inacessível como a Musselina de Dhaka. O objetivo é harmonizar essas tradições à tecnologia e infraestrutura atuais, preservando as identidades culturais, matérias-primas e práticas sustentáveis, que foram profundamente prejudicadas pelo modelo de produção em massa.

A Revitalização do Artesanato Brasileiro no Século XXI

Felizmente, hoje, estamos testemunhando um verdadeiro resgate das tradições artesanais no Brasil. A Farm Rio foi pioneira em 2017, ao criar uma parceria com povos indígenas, beneficiando 7 aldeias dos Yawanawá no Acre. Essas iniciativas emergem como respostas significativas à erosão das tradições locais e à necessidade de revitalização cultural. Da mesma forma, a Nordestesse, fundada por Daniela Falcão durante a pandemia, revelou novos talentos nordestinos como Catarina Mina, Elis Cardim e Morada, que estão se destacando no cenário nacional com suas produções artesanais, revitalizando comunidades e valorizando materiais orgânicos e/ou da nossa biodiversidade. A Artesa, de Luiza Bomeny, é uma iniciativa que combina design contemporâneo e artesanato tradicional, resultando em peças únicas que garantem um valor justo para os artesãos, com foco especial nos cariocas e fluminenses. Antes, esses artesãos utilizavam suas habilidades apenas para complementar a renda familiar.

Além dessas marcas, também ganha destaque no cenário nacional o Brasil Eco Fashion Week, fundado em 2017. Com oito edições já realizadas, a plataforma tem dado voz a designers e produtores brasileiros comprometidos com a sustentabilidade. O evento impulsiona o reconhecimento da moda nacional enraizada na identidade cultural do país, fortalecendo a conexão entre tradição e inovação. Essas histórias ilustram um verdadeiro movimento de resgate da identidade nacional, promovendo a união entre a tradição artesanal e o design autoral.

Esses esforços vão além da preservação de técnicas antigas, eles representam a construção de uma nova narrativa que une passado e futuro, respeitando e celebrando a biodiversidade local enquanto promovem um desenvolvimento focado na regeneração sistêmica. Essa abordagem considera as interconexões entre as comunidades, o meio ambiente, a economia local e as práticas culturais, promovendo soluções que beneficiam todos os aspectos do sistema.

O Legado da Colonização e o Potencial das Fibras Nativas

O Brasil, com seus seis biomas distintos — Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa — é o país com a maior biodiversidade do planeta. Apesar dessa abundância natural e da existência de algumas cadeias produtivas têxteis completas, muitas das fibras orgânicas predominantes ainda são as mesmas introduzidas em diferentes momentos históricos. A seda, por exemplo, foi introduzida no Brasil pelos portugueses em meados do século XVIII, segundo Corradello, mas só se firmou como cultura agrícola a partir de 1923, com a participação dos imigrantes japoneses e italianos, que consolidaram o cultivo, especialmente nos estados de São Paulo e Paraná. A juta, por sua vez, foi introduzida por imigrantes japoneses no século XX, contribuindo para o desenvolvimento da região Amazônica. Embora o algodão já fosse utilizado pelos povos indígenas antes da chegada dos colonizadores, sua história no Brasil foi profundamente marcada pela colonização, com a introdução de novas variedades para atender à demanda crescente da indústria têxtil, principalmente inglesa.

Em 2023, o Brasil foi considerado o maior exportador de algodão do mundo, segundo a Apex. Isso evidencia a ironia da situação: embora o país possua uma vasta biodiversidade, a predominância de investimentos na cadeia do algodão, em detrimento de outras fibras nativas, destaca a necessidade de reavaliar a alocação de recursos no setor têxtil.

Já o couro animal, uma matéria-prima têxtil utilizada desde os primórdios da humanidade, passou a enfrentar desafios significativos após a Revolução Industrial e a produção em massa. Embora frequentemente visto como um subproduto da indústria da carne, a demanda por couro incentiva práticas de produção que causam sérios impactos ambientais. A criação de gado para carne é uma das principais causas do desmatamento na Amazônia e Cerrado, resultando na perda da biodiversidade local. Além disso, o uso de produtos químicos nocivos, como sais de cromo, no processo de curtimento agrava ainda mais esses problemas. O fato é que qualquer material produzido nos volumes atuais tende a se tornar insustentável.

As dependências históricas mostram uma oportunidade para valorizar o grande potencial da nossa biodiversidade. Adotar práticas regenerativas e uma abordagem colaborativa pode criar arranjos produtivos mais diversos e eficientes, promovendo também uma economia justa e inclusiva. Isso beneficiaria tanto o meio ambiente quanto as comunidades locais, ajudando a evitar a produção excessiva.

Inovação Sustentável: O Futuro das Fibras Naturais no Brasil

Segundo Junior Costa, pesquisador e doutorando em Engenharia Têxtil (UMinho) e Biotecnologia (UFAM), existem fibras nativas da Amazônia, como o Curauá, que podem ser cultivadas em sistemas agroflorestais, com grande potencial econômico para agricultura familiar. O fruto da Sumaúma, conhecido também como Kapok, proveniente da maior árvore da Amazônia, pode ser transformado em fios e tecidos; sua fibra possui aspecto semelhante ao da seda, com propriedades técnicas como termorregulação, repelência a água e insetos. Essas características destacam o valor dessas fibras no contexto atual de sustentabilidade. As fibras do Caroá, Tucum e Buriti, originárias do extrativismo e amplamente utilizadas no artesanato tradicional pelos povos indígenas, podem ser beneficiadas por meio de tecnologias e processos biotecnológicos e ecológicos, viabilizando sua aplicação no setor têxtil. Além disso, existem as fibras provenientes de resíduos agroindústriais, como do caule da bananeira, geralmente descartado após a colheita, sendo viável para ser transformado em tecido.

O pesquisador ainda menciona que atualmente possui amostras de 21 novas fibras naturais e ressalta que há centenas de outras a serem estudadas na biodiversidade brasileira, com suas milhares de plantas e nelas, fibras com propriedades especiais únicas. Para que essas fibras ganhem espaço no mercado, é necessário investir no desenvolvimento de arranjos produtivos e em maquinário adequado para seu processamento.

“Para tornar essa solução possível, são necessários o interesse e o apoio do governo e da indústria nas pesquisas e nos pesquisadores desses materiais inovadores”, afirma Junior. Mas isso já seria assunto para outra matéria…

Reconhecer a importância das práticas artesanais e das fibras locais é fundamental para reverter a tendência de desintegração cultural e ambiental. Cada projeto que valoriza a tradição e harmoniza o conhecimento local com inovações contemporâneas é um passo em direção a um futuro onde a moda e o design possam realmente contribuir para a regeneração ambiental e social em áreas em risco de desmatamento. Isso não se resume apenas a melhorias em técnicas de produção ou certificações, mas envolve uma profunda reconexão com nossas raízes culturais e ecológicas. Entender a história e o propósito por trás de nossas artesanias é essencial para desenvolver o respeito pela herança cultural e promover práticas regenerativas que valorizem nossas fibras locais. Por futuros que sejam ao mesmo tempo ancestrais e tecnológicos.


1  A medida original era em jardas. Fonte: https://www.bbc.com/future/article/20210316-the-legendary-fabric-that-no-one-knows-how-to-make

 

2  Valores traduzidos de libras esterlinas. Fonte: Ibid.

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