Por João Caetano Almeida
A velocidade das mudanças de mercado tem imposto desafios crescentes às empresas familiares brasileiras. Em muitos casos, negócios consolidados ao longo de gerações encontram dificuldades para manter a agilidade na tomada de decisão exigida pelo cenário atual.
Trata-se de um ambiente cada vez mais dinâmico e competitivo, no qual as transformações ocorrem de forma acelerada, tornando controle de custo, inovação e capacidade de resposta fatores essenciais para a sustentabilidade das operações. Esse foi o desafio apresentado ao time da Value Creation da Aucta Capital: como tornar economicamente viável uma tradicional indústria têxtil brasileira que vinha enfrentando perda de participação de mercado e acumulava uma queda de mais de 60% em sua receita nos últimos anos?
A solução foi promover um amplo turnaround na empresa, partindo de um alinhamento profundo entre acionistas e executivos, seguido da implementação disciplinada de um conjunto de iniciativas estratégicas para recuperar o seu desempenho. O primeiro passo foi gerar um ambiente de diálogo tanto produtivo quanto provocativo para identificar as causas dos problemas e priorizar ações concretas levando em conta as limitações de recursos da companhia, com foco na retomada do crescimento.
Esse primeiro passo culminou em um workshop de 3 dias com acionistas e liderança da empresa. Além disso tivemos a participação de palestrantes de diversos setores que trouxeram benchmarks e provocações de diversos setores, incluindo temas como S&OP, Global Sourcing, Governança e Go-to-market. O output do workshop foi um conjunto de 20 projetos priorizados, que junto recolocariam a empresa no caminho do crescimento.
Em vez de adotar um modelo convencional de gestão de projetos – o PMO (Project Management Office), que normalmente acompanha cronogramas, indicadores e governança dos projetos – foi estruturada uma operação baseada no conceito de Transformation Office (escritório de transformação), assumindo o papel de CTO e a coordenação do processo como uma extensão do CEO e do Conselho de Administração da empresa.
O desafio não era apenas definir uma nova estratégia, mas assegurar mudança de cultura que garantisse velocidade de execução e disciplina na implementação das mudanças.
Ao longo de 12 meses, foram promovidas mudanças estruturais na organização, incluindo um workshop estratégico para fazer um amplo diagnóstico da empresa, o redesenho da estrutura organizacional, processos comerciais, revisão e destravamento de decisões de footprint fabril (configuração física, geográfica e estrutural de todas as instalações da organização industrial). Outras iniciativas também foram adotadas, como a disciplina na execução e o desenvolvimento das capacidades de liderança da empresa para que consigam gerenciar a companhia com outra perspectiva e sustentável ao longo do tempo.
Como resultado, a indústria têxtil conseguiu reverter a trajetória de queda e retomou o crescimento. Após a retração de 45% observada no período de 2022 e 2024, a empresa registrou crescimento de 25% em pouco mais de um ano, mantendo desempenho superior ao do mesmo período do ano anterior.
O case demonstra que muitos desafios enfrentados por empresas familiares não estão relacionados à falta de oportunidades de mercado, mas à necessidade de adaptação dos modelos de gestão e tomada de decisão. O crescimento sustentável depende cada vez mais da capacidade das organizações de se adaptar rapidamente, tomar decisões com velocidade, executar com disciplina e desenvolver uma cultura que premie tomada adequada de risco visando mudanças contínuas.
*João Caetano Almeida é sócio-diretor da Aucta Capital
Fonte e Foto: Paulo Figueiredo



