Varejo têxtil acumula saldo negativo de 32,6 mil empregos entre janeiro e agosto;
entidade defende equilíbrio tributário e regulatório para preservar a atividade econômica no país
As vendas do varejo recuaram 8,7% no acumulado de maio a agosto de 2026, na maior queda para o período desde 2021, segundo levantamentos da Cielo e da SEED apresentados pela Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX), entidade que representa o varejo de moda nacional. No mercado de trabalho, o varejo têxtil registrou saldo negativo de 32.639 postos entre janeiro e agosto, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego.
No mesmo período, dados da Receita Federal apontam a entrada de 100,9 milhões de remessas internacionais no Brasil, que movimentaram US$ 2,08 bilhões. Em comparação com os mesmos meses de 2025, houve crescimento de 77,6% na quantidade de pacotes e de 81,3% no valor declarado.
Os indicadores reforçam a necessidade de enfrentar as diferenças de tratamento tributário e regulatório entre as empresas instaladas no Brasil e as plataformas internacionais de comércio eletrônico. A entidade defende condições equivalentes de concorrência para sustentar as vendas, preservar empregos e estimular investimentos.
Para Edmundo Lima, presidente da ABVTEX, é preciso avaliar os efeitos da política tributária aplicada às compras internacionais de pequeno valor, considerando não apenas os benefícios imediatos ao consumidor, mas também seus impactos sobre a atividade econômica, a arrecadação e a geração de empregos no Brasil.
“Não é racional para um país em desenvolvimento como o Brasil privilegiar com benefícios fiscais empresas que estão do outro lado do planeta, em detrimento da indústria e do varejo instalados aqui. É fundamental que haja senso de urgência e ação por parte do governo para reequilibrar as condições de concorrência”, afirma Lima.
Edmundo Lima, presidente da ABVTEX
Foto: Divulgação
Diferenças tributárias comprometem a competitividade
A ABVTEX destaca que a discussão não envolve restringir o comércio internacional, mas assegurar que empresas que comercializam produtos no mercado brasileiro estejam submetidas a condições equivalentes de tributação e às exigências regulatórias aplicáveis.
A entidade lembra que as importações regulares integram a estratégia de abastecimento do varejo de moda, complementando a produção nacional em diferentes categorias, necessidades de escala e períodos sazonais. O problema está na diferença de tratamento entre operações comerciais que disputam o mesmo consumidor.
Simulações elaboradas pela GO Associados, consultoria econômica especializada, demonstram que essa desigualdade tende a persistir mesmo com o início da implementação da Reforma Tributária. Considerando cenários projetados para janeiro de 2027, o custo de uma camiseta importada pelo regime convencional seria 37% superior ao de um produto equivalente adquirido pelo Programa Remessa Conforme, iniciativa da Receita Federal que simplifica a importação de compras internacionais pela internet. Para perfumes, a diferença estimada seria de 27%, chegando a 73% no caso de determinados tênis.
A ABVTEX ressalta que essas diferenças decorrem das regras tributárias consideradas nas simulações e não de ganhos de produtividade ou eficiência operacional. O impacto potencial é significativo para um setor que, em 2025, movimentou R$ 427,1 bilhões, empregou diretamente mais de 910 mil pessoas e reuniu aproximadamente 191 mil pontos de venda no país, segundo o IEMI – Inteligência de Mercado.
Fiscalização e combate à pirataria também entram no debate
Além da questão tributária, há desafios relacionados à fiscalização das remessas internacionais, à rastreabilidade das operações e ao combate à comercialização de produtos irregulares.
A Associação pela Indústria e Comércio Esportivo (Ápice), entidade formada por grandes empresas do setor de produtos esportivos, apresentou um levantamento que revela a comercialização de aproximadamente 225 milhões de produtos esportivos piratas no Brasil em 2025, equivalentes a 34% desse mercado. O estudo estima que a pirataria tenha impedido a arrecadação de cerca de R$ 7,4 bilhões em tributos e a geração de aproximadamente 60 mil empregos na produção.
O levantamento da Ápice mostra uma compra-teste de três produtos esportivos falsificados que chegaram ao Brasil com identificação do Programa Remessa Conforme. A operação revelou divergências entre os valores pagos e os declarados, informações incorretas sobre as mercadorias e inconsistências na classificação fiscal.
O episódio reforça a importância de ampliar a capacidade de fiscalização, garantir a identificação dos responsáveis pelas operações e assegurar o cumprimento das normas brasileiras de proteção ao consumidor, segurança dos produtos e propriedade intelectual.
A ABVTEX e a Ápice integram a Coalizão Prospera Brasil, movimento que reúne entidades representativas da indústria, do comércio, dos serviços e dos trabalhadores em defesa da isonomia tributária e regulatória. A mobilização alerta que a falta de conformidade regulatória também representa uma vantagem competitiva indevida para operações que não assumem os mesmos custos e responsabilidades das empresas que atuam regularmente no país.
Coalizão cobra urgência na revisão das regras
A proximidade de datas comerciais relevantes, como a Black Friday e o Natal, aumenta a preocupação da Coalizão com a manutenção das diferenças tributárias e regulatórias. O grupo defende que o governo federal avance na avaliação dos efeitos econômicos da tributação das remessas internacionais, considerando indicadores de emprego, renda, competitividade, arrecadação e evolução do comércio eletrônico transfronteiriço.
O estudo da GO Associados aponta que a isonomia tributária poderia acrescentar 11,3 pontos percentuais ao desempenho do varejo de vestuário em 2026, em comparação com o cenário de referência adotado pela consultoria. No cenário de manutenção da alíquota zero do Imposto de Importação para as remessas abrangidas pela medida, o efeito projetado seria negativo em 5,8 pontos percentuais.
Para Edmundo Lima, presidente da ABVTEX, é fundamental que o governo inicie o processo de revisão dos impactos da medida e promova maior rigor na fiscalização. “Precisamos de condições mínimas de igualdade para estimular investimentos, preservar empregos e promover o desenvolvimento sustentável do país”, reforça.
A ABVTEX defende que o avanço do comércio eletrônico e a ampliação das opções de consumo sejam acompanhados por regras equilibradas, fiscalização efetiva e segurança jurídica, de forma a permitir que empresas de diferentes origens concorram em condições justas no mercado brasileiro.
Sobre a ABVTEX
Fundada em 1999, a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX) é a entidade que congrega as mais representativas redes nacionais e internacionais de varejo de moda, que comercializam itens de vestuário, calçados, bolsas, acessórios, além de artigos têxteis para o lar. É a principal interlocutora do setor junto a entidades ligadas à indústria, comércio e serviços; autoridades dos governos federal, estaduais e municipais; ONGs e associações; imprensa; e a sociedade em geral.
Promotora do diálogo entre os diferentes elos da cadeia de valor da moda, a ABVTEX é reconhecida por suas iniciativas em prol da conformidade, do fornecimento responsável e da promoção do trabalho digno, por meio do PROGRAMA ABVTEX. Entre seus pilares de atuação estão também o combate à falta de isonomia tributária em relação ao comércio eletrônico internacional e à informalidade, além da promoção do desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva que abastece o varejo de moda.
Fonte: ADS Comunicação



